texto: seria a Grécia antiga liberal em relação à homosexualidade?

 Texto autoral, originalmente publicado na plataforma Quora (em português). Como não é uma publicação acadêmica, linguagem coloquial foi utilizada, porém fundamentada em fatos históricos.

link para acesso à publicação original aqui.

texto:

É um mito dizer que não havia homofobia na Grécia antiga, como se isso resultasse em uma sociedade esclarecida e tolerante com a sexualidade.

É um erro duplo, primeiro por assumir que essa suposta sociedade esclarecida, como as pessoas a imaginam, existiu. E outro por incorrer em anacronismo ao considerar que a alternativa seria a homofobia, como entendemos hoje.

A verdade é que não existe resposta simples, e primeiro temos que entender que, em primeiro lugar, não existe “a” sociedade grega. A Grécia antiga era uma região, e não um país unificado. Assim sendo, temos diferentes reinos/repúblicas, com diferentes costumes, ao ponto de que arrisco dizer que um ateniense à época da guerra do Peloponeso poderia se sentir, em diversos aspectos, mais próximo de nós do que de um espartano. Além disso, esse período da “Grécia Antiga” percorreu diversos séculos, e as coisas mudam bastante com o tempo.

Mas podemos pegar uma generalização da Grécia Antiga (ao menos de seus aspectos mais célebres) e tentar entender dessa maneira. Ainda assim não é possível simplificar demais, mas vamos tentar:

Dentro dessa generalização grosseira, podemos dizer que a homosexualidade era sim vilipendiada na Grécia Antiga, possivelmente muito mais do que hoje em dia. O papel de um homem na sociedade era ser homem, e naquele contexto ser homem significava, dentre coisas como defender seu país ou a escravidão, ser algum dia um patriarca. Portanto, constituir família, ter filhos. Isso repudia o conceito tradicional de homosexualidade, de uma pessoa que somente se relaciona com o mesmo sexo. Porém abre brecha para uma espécie de bisexualidade: alguém que pratique sexo com pessoas do mesmo sexo mas não se exima de seu papel de homem (como descrito acima). Outro ponto curioso é que, no caso do homosexualismo masculino, o passivo da relação era o desprestigiado da história, como se o ativo não fosse maculado pelo homosexualismo. Coisa similar existe ainda hoje, mesmo no Brasil, em regiões mais rurais ou de menor nível de escolaridade (não me perguntem o porquê, isso ja geraria outra resposta gigante).

Outro fator a se considerar era a existência do “instituto” da pederastia, no qual um adulto seria o tutor de um jovem, e nessa tutoria envolveria sexo também. Esse costume parecia ser aceito como algo normal. Mas é necessário frisar que, como já disse anteriormente, o que chamamos de Grécia Antiga são coletâneas de países com grandes distinções culturais, e ao longo de um vasto tempo, o que gera também grandes distinções. Em outras palavras: esse “instituto” da pederastia nunca foi um denominador comum em todos os povos em todos momentos, longe disso, mas se tornou famoso e o conhecimento sobre ele sobreviveu ao tempo. Outro costume famoso, ao menos entre os entendidos de história grega, era a prática militar da cidade estado de Tebas, na forma de sua “banda sagrada de Tebas”, que possuia como uma de suas doutrinas o sexo entre os soldados, na crença de que isso fortaleceria os vínculos entre eles e consequentemente aprimoraria o desempenho em batalhas. Curiosamente, Tebas foi a cidade que venceu Esparta em seu auge na batalha de Leuctra, pondo fim definitivo à hegemonia Espartana. Ainda que estivesse em desvantagem numérica. Claro que não podemos afirmar que houve influência desse fator da sexualidade, mas gera uma boa curiosidade histórica.

TL/DR:

Não era uma sociedade liberal/esclarecida como entendemos hoje, e tampouco era uma sociedade homofóbica como entendemos hoje. Para saber exatamente como, leia a resposta completa.

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