Texto: por que a classe média brasileira é tão reacionária? Quais são as explicações históricas para isso?

 

 Texto autoral, originalmente publicado na plataforma Quora (em português). Como não é uma publicação acadêmica, linguagem coloquial foi utilizada, porém fundamentada em fatos históricos.

link para acesso à publicação original aqui.

texto: 

Acredito que isso seja inicialmente um mal da classe média, qualquer que seja sua nacionalidade. Porém pode ser que tal mal seja potencializado por algumas características brasileiras.

Sobre ser um mal de qualquer classe média: Se dividirmos a grosso modo uma sociedade entre classe alta, média e baixa, entenderemos que a classe média é a mais irrequieta, preocupada em manter sua posição, tanto em questões práticas, materialistas quanto em questões mais abstratas, morais e psicológicas (curiosamente, essas últimas parecem ser mais importantes que as primeiras). Por que isso? Simples: Generalizando, podemos dizer que o grosso da classe baixa se sinta como não podendo cair mais. Estando no fundo do poço não teria muitas preocupações sobre descer mais ainda. Poderia se preocupar em ascender socialmente, mas isto é muito difícil, de forma que muitos se resignam a viverem suas vidas sem muitas ambições (Me vem à mente a música “deixa a vida me levar”, de Zeca Pagodinho). Já a classe alta não possui grandes preocupações sobre cair para a classe média. Isso é extremamente difícil, e iria requerer praticamente um hercúleo esforço deliberado nesse sentido. Imaginemos um dos piores cenários possíveis: um homem de seus 45 anos que nunca trabalhou, e até seja um pouco mentalmente retardado, subitamente herda as ricas posses de seus pais. Para essa pessoa basta viver de renda, que provavelmente seus pais já providenciaram sabendo o filho que têm. Ou ainda mantenha a empresa dos pais funcionando, com a administração de outros. Ou tenha uma previdência privada que os pais providenciaram, dando a ele uns 30.000 reais mensais. Ou tenha muitos imóveis rendendo aluguéis. Ou, o que é mais provável: Uma mistura de tudo isto. Tal pessoa não precisaria trabalhar nunca.

Agora vamos à classe média: Esta sabe que não pertence à classe alta (embora goste de fantasiar isto) e que não pertence à classe baixa. Mas, ao contrário das outras classes, possui uma real possibilidade de queda. Basta uma demissão, uma decisão financeira errada ou má sorte. Mesmo uma política do governo pode alterar sobremaneira seu dia a dia. Exemplo: Os novos direitos das empregadas domésticas tornaram esta “posse” um item mais raro dentre a classe média. Mas não afetaram a classe alta, que não se prejudicou de maneira relevante para continuar mantendo esse benefício, e também não prejudicou a classe baixa, que já não tinha mesmo empregadas domésticas.

Some a isso a necessidade urgente de se reafirmarem moralmente como não pertencendo a classe baixa, ostentando símbolos de riqueza e luxo e evitando qualquer associação com classes menos favorecidas. Novamente, algo que praticamente não existe na classe baixa e na alta, por estarem seguras de sua posição social. Exemplos: A necessidade de ostentar carros e roupas caras, ainda que isto implique em um grave sacrifício financeiro, evitar ser visto utilizando transporte público (não é somente pela precariedade e desconforto deste, é também pela vergonha). Acredito que a situação que melhor exemplifique essa condição psicológica seja o ódio irracional e brutal que a classe média desenvolveu sobre o fenômeno “pobre no aeroporto”. Não incomodou a classe alta, e sim a média. Uma certa escritora com sobrenome de felino chegou a escrever com tom de tristeza em sua coluna em um periódico que “não havia mais glamour em viajar de avião para Paris”, já que “poderia trombar com seu porteiro no aeroporto”.

Tudo isso leva a classe média a:

  • Se incomodar com a ascensão social dos pobres, ainda que isso não implique em prejuízo a si, pois isso diminui a distância “moral” que ela aprecia que exista entre ela e a classe pobre.
  • Ter necessidade de alimentar constantemente as características morais que as distanciam dos pobres, muitas vezes até adotando ideologias das classes altas, ainda que danosas à própria classe média.
  • Ser mais susceptível a paranoias conspiracionistas, como os famosos “golpes comunistas” que sempre são prometidos e nunca chegam.
  • Ter menos (ou quase nenhuma) mobilidade em comparação à classe alta, que pode com muito mais facilidade mudar seus investimentos de área ou país (ou até mesmo se mudarem de país) bem como não dependerem de salários.

Quanto às especificidades nacionais que agravam tal cenário, podemos citar o passado colonial e escravocrata, que nunca foi plenamente rompido de maneira absoluta, somente diminuiu um pouco sua intensidade. Muitos dizem que tal passado gerou raízes que ainda influenciam nossa sociedade. Pessoalmente, não acho que sejam somente raízes.

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